segunda-feira, 19 de setembro de 2016

TEXTÃO: Pensando a partir das considerações da mesa Gestão Cultural para a Promoção de Cultura Livre


Na mesa inaugural do 1º Congreso On Line de Gestión Cultural, cuja videoconferência com a participação dos cinco projetos selecionados ocorreu na última quinta (15.09), o debate girou em torno de processos de gestão de inciativas de cultura livre. Nessa discussão, ficou exposto na fala dos palestrantes um incômodo que sinto desde que comecei a ver as palavras gestão e cultura livre juntas: como aliar o conceito de gestão, diretamente relacionado ao vocabulário capitalista e empresarial, com a ideia de cultura livre? Essa foi uma questão que surgiu em quase todas as falas e, em muitos casos, se destacavam também as dificuldades e contradições que se sentia em torno à gestão da cultura livre.

A aparente dificuldade prática dessa relação começa, pra mim, na relação contraditória que essas duas ideias, que vêm de estruturas discursivas distintas, estabelecem. Segundos os sociólogos franceses Eve Chiapello e Luc Boltanski, a reestruturação do capitalismo durante os anos 1980 e 1990 ocorreu em torno dos mercados financeiros e da apropriação do âmbito da cultura, gerando o que eles chamam de novo espírito do capitalismo. O importante dessa definição é compreender que essa reestruturação do capitalismo, para ser efetiva, necessitou recorrer de maneira forte à elaboração de um novo vocabulário, criando termos que se referiam à gestão empresarial e financeira, mas que acabaram alcançando o nível cultural mais amplo, sendo usados inclusive para se referir ao universo artístico e da produção cultural. E como processo ideológico que é, tanto quem era a favor como quem era contra passou a usar os mesmos termos para nomear processos similares. Segundo os autores:
O espírito do capitalismo é justamente o conjunto de crenças associadas à ordem capitalista que contribuem para justificar e sustentar essa ordem, legitimando os modos de ação e as disposições coerentes com ela. Essas justificações, sejam elas gerais ou práticas, locais ou globais, expressas em termos de virtude ou em termos de justiça, dão respaldo ao cumprimento de tarefas mais ou menos penosas e, de modo mais geral, à adesão a um estilo de vida, em sentido favorável à ordem capitalista. Nesse caso, pode-se falar de ideologia dominante, contanto que se renuncie a ver nela apenas um subterfúgio dos dominadores para garantir o consentimento dos dominados e que se reconheça que a maioria dos participantes no processo, tanto os fortes como os fracos, apoia-se nos mesmos esquemas para representar o funcionamento, as vantagens e as servidões da ordem na qual estão mergulhados. (BOLTANSKY & CHIAPELLO, 2009, p.42)

Com o perdão da citação, meu interesse aqui é entender porquê processos de cultura livre, que se contrapõem diretamente às formas de produzir, distribuir e consumir cultura que se consolidaram (ou se radicalizaram) nesse período da década de 1980 também utilizam esse vocabulário técnico-empresarial. Como a ideia de gestão, que se relaciona com a maximização dos lucros ou dos resultados, pode ser utilizada no seio de um pensamento que pretender, mais do que lucro, pensar a viabilidade de projetos que não pretendem ser comercializados ou fechados?

Comecei a ver a conferência tendo essa inquietação em mente e achei interessante como o debate foi iniciado. A pergunta que inaugurou a mesa, “qual a chave da sustentabilidade de projetos de cultura livre?” levou a várias reflexões sobre como não só pensar formas de tornar viáveis projetos de cultura livre, mas pensar a própria existência desse tipo de proposta dentro de um sistema econômico cultural baseado na noção de lucro e investimento.

O representante de Panorama 180 Andreu Mixidie, grupo organizador do festival BccN, foi o primeiro a debater a questão e o que mais demonstrou incômodo e incerteza em torno da questão da sustentabilidade de projetos culturais. Levando a questão a um debate mais filosófico, pensava sustentabilidade em termos mais amplos e tentava não reduzir o tema a uma única resposta possível.

Já a representante de Ediciones La Terraza, Barbi Couto, colocou a questão da sustentabilidade em um terreno mais prático. Sendo uma editora que propõe publicar livros ilustrados usando licenças creative commons e financiamentos alternativos (croudfunding, entre outros), Barbi Couto situou a questão da sustentabilidade no seio do mercado editorial. Considerando dificuldades como distribuição e comercialização de livros dentro desse mercado amplo e disputado e, também, tendo em conta o tamanho da editora, Barbi Couto considera que o fato de terem optado por focar na cultura livre foi positivo para possibilitar o projeto. Ou seja, disponibilizar os livros para download grátis foi um veículo que facilitou a divulgação e circulação dos livros, dos autores e, obviamente, do nome da editora. A própria Barbi Couto usa o termo “carta de apresentação” quando se refere ao site da editora e à possibilidade de fazer download grátis dos livros no mesmo. Ao citar um exemplo em que uma das campanhas de croudfunding que a editora realizou recebeu a colaboração de pessoas de nove países distintos, graças à difusão via web dos livros anteriores e da circulação do nome da editora entre ativistas da cultura livre e creative commons, deixa claro como a criação de redes foi importante para viabilizar economicamente o projeto da editora. Ao falar sobre como realiza a comercialização dos livros impressos em um mercado tradicional, afirma que o faz a partir de determinados critérios, selecionando apenas algumas livrarias que se interessam por comercializar livros-objeto e ilustrados (e provenientes de editoras pequenas). Também comercializam os livros em feiras. Mas o processo de vendas dos livros, segundo Barbi Couto, é mais lento e gradual, podendo gerar recursos para publicar outros livros, mas sem ser o que sustenta o projeto da editora. O projeto, segundo Barbi Couto, se amplia e revigora na construção de redes que vai gerando. Nesse ponto, a fala de Couto começou a me provocar uma suspeita de que a ideia de redes, a noção de colaboração e compartilhamento, nesse caso, estão apenas servindo à sustentação de um projeto editorial, mais do que pensando essas próprias ferramentas em si. Mas vejamos mais adiante.

Uma contribuição, que para mim gerou um contraponto interessante a essa fala de Couto, foi a de Rodrigo Savazoni , do Instituto Pró-comum (Santos, São Paulo). O projeto Laboratório Cidadão, realizado pelo Instituto Pró-Comum em Santos, é uma proposta de ação que pretende, a partir da cultura livre, estabelecer um “marco de possibilidades de interferência nas culturas políticas e econômicas que marcam as nossas cidades”, segundo palavras de Savazoni. Desde essa proposta de cultura livre voltada para a questão da participação cidadã, Savazoni reflexiona sobre a sustentabilidade pensando, primeiro, em que marcos teóricos essa palavra deve ser pensada. Propõe, portanto, pensar em sustentabilidade como “instrumento de afirmação de novas culturas econômicas”. Ao enfatizar, junto a ideia de sustentabilidade, as noções de economia colaborativa e economia solidária, Savazoni abre um importante espaço para o debate sobre como os termos do capitalismo financeiro e empresarial precisam ser problematizados no interior da cultura livre. Se sim, é verdade que os projetos de cultura livre para existir necessitam de algum tipo de financiamento, e Savazoni recorda as diversas fontes possíveis (seja via pública, via empresarial ou inciativa dos próprios usuários), também é importante considerar que se a ideia de economia e cultura não são refletidas e ressignificadas, facilmente a ideia de cultura livre pode se perder. Para Rodrigo Savazoni, o importante é pensar a cultura livre como instrumento de modificação da ideia de economia.

Outra pergunta que me chamou a atenção foi “como, desde a cultura livre, se pode gerar novos modos de gestão cultural”. Aqui, novamente, vi que a relação da cultura com o vocabulário empresarial, que como dissemos acima foi enfatizada especialmente a partir dos anos 1980, ainda é fortemente presente, mesmo quando se trata da reflexão sobre cultura livre.

Durante as reflexões sobre este tema, novamente achei que a fala de Barbi Couto acabou voltando-se para um lado mais prático da gestão de um projeto editorial que, para realizar-se, necessita de apoio coletivo e a ideia de colaboração que emerge aqui é a de: é necessário um apoio coletivo para a realização de um projeto cultural o qual, ao ser produzido, é disponibilizado coletivamente para todas e todos que contribuíram. É uma ideia interessante desde o ponto de vista da viabilização de projetos culturais sem a obrigação de participação em um mercado desigual e extremamente competitivo, por um lado, e sem o financiamento estatal, por outro. Mas sinto na fala de Barbi Couto que sua noção de colaboração e compartilhamento, centrada na produção e no acesso ao produto cultural e na visibilidade dos autores e da editora, torna possível um processo de posterior captura por um mercado editorial. Porque, em sua fala, ela deixa transparecer uma noção de rede e de comunidade muito restrita, baseada naqueles que colaboram para a criação de um livro, aqueles que o compartilham e/ou que se interessam pelo projeto e querem colaborar.

Claro que as comunidades não necessitam ser necessariamente amplas e universais e eu acho que um ponto importante destacado pela cultura livre é a possibilidade de formação de pequenas comunidades que passem a ter a possibilidade de existir e compartilhar cultura e informação fora de circuitos oficiais. Mas o que me causa incômodo na reflexão de Couto é a falta de ênfase nas questões mais de fundo dessa relação colaborativa e aberta em sua fala, deixando a sensação de uma compreensão de colaboração que se limita à viabilidade de um projeto que, de outra maneira, seria inviável. Ou seja, sua fala me deixou com a sensação de que o projeto, ao não realizar uma crítica mais profunda ao mercado editoral, seus sistemas de circulação e comercialização, apenas corre à margem deste, podendo passar a participar do mesmo caso tenha a possibilidade. Pensar sobre redes e criação de comunidade é algo que, a meu ver, deveria ser um fim em si mesmo não uma via para conquistar algum outro objetivo e digo isso sem querer fazer julgamento moral do projeto Ediciones de La Terraza. Está bem que alguém necessite viabilizar um projeto que é interessante sem ter que recorrer às mesmas vias de financiamento de sempre, podendo fazê-lo desde uma comunidade de pessoas que acreditam nele o suportam. Porém, creio que o fato de usar licenças creative commons, apesar de interessante e contra-sistêmico, nem sempre significa pretender construir novas comunidades ou propor modos de existir e fruir diferentes dos estabelecidos. Podem estar apenas viabilizando-se de formas alternativas (e colaborando para o que os palestrantes na mesa chamaram de capitalismo 2.0). Creative commons como estratégia de marketing é uma possibilidade a se considerar dentro do que se chama cultura livre. É bom ficar atento.

Nesse aspecto, Mixidie, quando deixa em evidência sua sensação de incerteza sobre o que significa gestionar um projeto, me deixa a impressão de estar entendendo a cultura livre de maneira mais ampla que apenas um projeto cultural aberto ao compartilhamento. Em sua fala, deixa clara uma noção de comunidade que, a meu ver, se pode colocar em contraste à anterior, no sentido de que pensa a comunidade não só como um grupo de pessoas que pode apoiar (ou se apropriar ou até compartilhar) um projeto.

Na fala de Mixidie, parece que a própria noção de coletividade está posta em questão, assim como a condição de trabalhadores da cultura dele e de seus companheiros organizadores dos festivais. Esse lugar indecidível, para usar termos derridianos, em que ele coloca sua condição de trabalhador da cultura - uma condição precária e pouco definida que não o garante sequer a sobrevivência -, a necessidade de pensar as contradições entre necessitar defender uma sobrevivência mínima e, também, defender a total abertura dos projetos que produz, evidencia, para mim, o real desconforto que a cultura livre e sua ideologia de abertura, acessibilidade, colaboração, horizontalidade, etc., vivenciam no seio da estrutura ideológica neoliberal. Pensar nesses termos significa pensar mais profundamente nas estruturas culturais e ideológicas em que se está produzindo a cultura livre, independente das tecnologias que utiliza e meios que ocupa para se distribuir. Não estar confortável e demorar muito para conseguir se estabelecer e produzir algo, segundo Mixidie, significa que a possibilidade de captura pelo mesmo sistema capitalista de que se pretende escapar pode estar mais improvável. Sua defesa de gestionar a contradição de ter que participar dessa estrutura neoliberal e, ao mesmo tempo, enfrentá-la e contradizê-la parece vir junto com o desconforto de não encontrar respostas para como se soluciona essas contradições. E essa demonstração de incômodo e desconforto é bastante valiosa, no meu entender, para compreender projetos que verdadeiramente estão buscando uma outra forma de pensar economia e sua relação com a cultura, ou novas culturas econômicas, novas economias, etc.


Nesse ponto, o debate tomou um rumo interessante para começar a pensar a institucionalidade atual e possibilidades institucionais novas, ou novas imaginações institucionais. A partir da provocação de um dos participantes sobre a questão da autonomia e a relação da política anarquista com a cultura livre, o debate começa a girar em torno de como se manter autônomo frente às atuais instituições modernas que produzem e reproduzem a ideologia neoliberal. Ou então, de que maneira construir novas institucionalidades que permitam a possibilidade de experimentar a cultura livre de maneira mais ampla. Nesse ponto da discussão, Rodrigo Savazoni se refere ao tropicalismo e à antropofagia - manifestos culturais que embasaram os modernismos e vanguardas artísticas do Brasil -, para se referir a estratégias de entrar e sair das estruturas. Segundo ele, esse tipo de procedimento se referiria a um processo de estabelecer conexões com distintos pontos de forma a caminhar a um ponto democrático de relação entre as instituições. Excetuando que talvez a noção de antropofagia não esteja sendo empregada tão adequadamente - ou que esteja sendo estendida de uma noção de produção criativa que se utiliza do canibalismo do outro para incluir uma noção de democracia -, o que Savazoni propõe, me parece, é pensar em institucionalidades futuras, uma criação institucional baseada em redes e interconexão e em uma possível nova lógica de construção mais horizontal e aberta. Levando em consideração o atual contexto brasileiro e a flagrante falência institucional que vivenciamos, me parece lúcida a consideração, mesmo que esta proposta esteja dada em termos gerais, sem pouca consideração efetiva de como se construiriam essas novas instituições.

De uma maneira geral, o debate provocado nesta primeira mesa foi interessante para demonstrar os ainda muitos desafios da cultura livre. Pensar os projetos e sua realização, no interior da cultura econômica neoliberal, propõe uma série de questionamentos que se referem desde “qual é o limite do pagamento justo e do lucro?” até questões que se relacionam com questionar "o que é realmente um coletivo?”, e, como, de fato,” realizar propostas horizontais e comunitárias?”. A necessidade de financiamento para os projetos esbarram as vezes em questões éticas sobre quem são os financiadores e quais são suas intenções em relação a estes. A possibilidade de captura dos projetos é algo que paira como uma sombra e o desafio é lidar com ela, discutir e elaborar criticamente cada projeto e proposta constantemente. O caminho para uma nova institucionalidade é largo e difícil de caminhar. Não será fácil sair da instituição econômica neoliberal e isso se torna aparente quando a cultura livre usa os mesmos termos dessa matriz ideológica, mesmo que de maneira ressignificada. Hackear esse sistema desde dentro, como muitos da cultura livre gostam de afirmar, é um caminho – e um bastante importante. Mas o desafio posto é pensar um para além, um futuro: o que fazer para além dessa matriz neoliberal? Como criar novas instituições? Como pensar novas economias e culturas? O incômodo parece estar longe de resolver-se.


Para assistir à conferência, clica no canal do Ártica no youtube: https://goo.gl/iO4kFk


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